Para analista, mudança na campanha de Serra mostra falta de rumo
29/07/2010, Postado por galeradadilma
Diretor do Instituto Análise e doutor em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), Alberto Carlos de Almeida (na foto) se tornou um dos mais requisitados especialistas brasileiros em análises de pesquisas desde que seus livros “A Cabeça do Brasileiro” e “A Cabeça do Eleitor” se tornaram best sellers.
Em entrevista ao Boca de Urna, Almeida disse que a mudança de tom na campanha do candidato do PSDB, José Serra, com acirramento das críticas às ligações do PT com o MST, os narcoguerrilheiros das Farc, na Colômbia. e o regime bolivariano do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, mostra falta de rumo na estratégia tucana. Para Almeida, os ataques, feitos com o propósito de despertar inquietação nos eleitores com relação à capacidade de Dilma de domar os setores mais à esquerda do PT, apenas facilitarão a estratégia governista de mostrar a candidata petista como a continuidade do governo Lula.
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:
Boca de Urna – Com as críticas às ligações do PT com as Farc, com o bolivarianismo do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e o MST, a campanha de José Serra parece ter partido para um acirramento ideológico à direita. Essa mudança de tom pode dar certo do ponto de vista eleitoral?
Alberto Carlos de Almeida – Acho que não. O maior porém dessa estratégia é dar munição à campanha da Dilma e ao PT para mostrar que o Serra é contra o governo Lula. Há três semanas, Serra e a campanha tem feito um somatório de críticas. Não só às Farcs, mas também à construção de Belo Monte, às obras de Copa. Para mim, isso mostra falta de rumo porque o Serra começou a campanha, dizendo que daria continuidade ao governo Lula, com o slogan “O Brasil pode mais”. No começo da campanha, a Dilma disse que o Serra agia que nem biruta de aeroporto. No final das contas, ele está meio sem rumo mesmo. O Serra está fazendo o equivalente ao que o Lula fez em 1994 ao criticar o Plano Real. O Lula disse que o Plano Real era o Plano Cruzado dos ricos. Quando falou aquilo, ele ajudou o Fernando Henrique. Agora é a mesma coisa. Como há uma aprovação avassaladora do governo Lula, quando mais você o critica, mais você ajuda o governo. Do ponto de vista estratégico, a campanha do Serra, no fundo, está ajudando a campanha do governo.
Boca de Urna – O Serra começou a campanha com uma estratégia de não fazer críticas ao governo Lula. Por que houve essa guinada?
Almeida – A campanha é muito difícil para o Serra por conta da elevada aprovação do governo. Em 2002, quando ele disputou pela primeira vez a Presidência, ele foi candidato do governo, mas queria se afastar do governo FHC, que era impopular. Agora, ele é um candidato de oposição que, teoricamente, para ter sucesso, teria de se aproximar do governo, numa estratégia semelhante à adotada pelo Sebastián Piñera (político de direita, que foi eleito presidente do Chile em janeiro deste ano), que se colocou como continuidade do governo da ex-presidente Michelle Bachelet (socialista). Lá, o Piñera usou grandes símbolos, como a duplicação da licença maternidade, para mostrar essa continuidade. Essa inflexão da campanha do Serra mostra um conservadorismo. É uma campanha que não vai ousar. Ousar seria se aproximar em termos simbólicos do governo. Na pré-campanha, houve uma espécie de carta de intenções de fazer uma campanha próxima do governo, mas essa intenção não está sendo realizada nessa fase atual da campanha, em que o bicho pega. Imagino que deve ter havido muitos debates internos na campanha tucana sobre o posicionamento do candidato. Deve ter vencido a tese de que não adianta tentar mudar o posicionamento, porque o campo governista já está dominado pela Dilma.
Boca de Urna – O Serra deveria continuar então a linha de forçar uma comparação com a candidata Dilma Rousseff em termos de perfil e currículo?
Almeida - Sim, desde que isso não fosse algo abstrato. Não adianta dizer apenas que eu sou melhor do que a Dilma, vocês vão se dar conta disso e vão votar em mim. Você é melhor para quê? Com que objetivo? Por isso, eu digo que não pode ser uma comparação biográfica em abstrato. Comparação biográfica tem de visar a um objetivo concreto, que seria dar continuidade ao Lula em um tema específico: o aumento da capacidade do poder de compra da população. Esse é um tema que não tem estado na agenda de campanha do Serra.
Boca de Urna – Esse seria um discurso capaz de atrair a nova classe média emergente?
Almeida – Não só a classe média, mas também a classe mais baixa. Esse discurso pega todo mundo que seja do meio para baixo. As pessoas são muito sensíveis ao poder do aumento de compra. Quando o Serra enfatiza a questão da segurança pública e da saúde, é uma decisão equivocada em termos de obtenção de votos. Na hora de escolher um candidato, o que mais pesa para o eleitor brasileiro é saber quem acha que irá comprar aumentar a sua capacidade de compra. Não é segurança pública, nem saúde, porque o eleitor sabe que, no sistema brasileiro, essas atribuições são mais dos Estados e municípios que do governo federal.
Guilherme Evelin
Revista É poca
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